16
de
julho
TORQUATO NETO
Nunca escorreu pelo meu corpo a aurora, nunca sentí na minha boca o transpassar de noites, nunca dormi ao lado de estrelas - que isto são coisas absolutamente sem importância, que, de resto, outros sonhadores já tiveram o cuidado de sonhar.
Eu em mim incrivelmente existo e me basto. O temer e o esperar passaram por completo. E a vontade de ver o invisível e tocar o intocável e calcular o necessáriamente incalculável também passaram e não prossigo nisto. Sou exatamente o que me basto para continuar sendo.
E nisto me basto.
Quando não pude alcançar o lado oposto e me perdí e não voltei atrás, eu prosseguí pelo caminho e não parei. Quando na volta preferí viver só eu me bastei com meus distensos músculos eu não cortei demais a minha carne em pedaços inúteis. Minha incerteza quando dói a afasto e não me engano em pensar o que não posso e nem me abandono a construir filosofias que a enxarquem. Se não componho as sinfonias que escuto, ninguém o sabe: eu não sou músico. Quando não sei se devo ou se não devo prosseguir em escrever poemas e asneiras, eu nada faço e me recolho: o poeta que não sou pode nascer ainda.
Como o dedo apagaria o sol congelaria a aurora no meu corpo e afastaria estrêlas - mas não quero, outros sonhadores já sonharam isso. Como disse, sou exatamente o que me basto para prosseguir e não quero mais.

A Virtude
a) A virtude é a mãe do vício
conforme se sabe;
acabe logo comigo
ou se acabe.
b) A virtude e o próprio vício
- conforme se sabe -
estão no fim, no início
da chave.
c) Chuvas da virtude, o vício,
conforme se sabe;
é nela própriamente que eu me ligo,
nem disco nem filme:
nada, amizade. Chuvas de virtude:
chaves.
d) (amar-te/ a morte/ morrer:
há urubús no telhado e carne seca
é servida: um escorpião encravado
na sua própria ferida, não escapa: só escapo
pela porta de saída).
e) A virtude, a mãe do vício
como eu tenho vinte dedos,
ainda, e ainda é cedo:
você olha nos meus olhos
mas não vê nada, se lembra?
f) A virtude
mais o vício: início da
MINHA
transa, início, fácil, termino:
"como dois mais dois são cinco"
como Deus é precipício,
durma,
e nem com Deus no hospício
(durma) nem o hospício
é refúgio. Fuja.

Estão guardados em mim o olhar e o falar. Mas não saem trancados em sete portas e não saem, não tem chaves necessárias ou a equivalentes ousadia. Submeto-me às restrições dessas certezas e pronto: eu, como não o desejaria nunca a minha mãe. Mas eu, como o quero e sou por isso o eu diferente e inaceitável escondido nas entranhas de mim mesmo acorrentado a esse meu vazio e sem poder sair. Assim me entendo e aceito e quero. Fosse dado a cavernosas reflexões em torno de cavernosissímos problemas insolúveis e seria assim. Fosse o tal que nunca leu sequer gibi mas cita Sócrates e Dante e seria assim sem mais nem menos. Ora! Isto sou eu com a soma de meus complexos e aflições; Um eu que não sei onde acaba, onde começa - mas que existe vertical pelas calçadas e horizontal na cama. Eu retorcido ou não, sei lá eu.
O pensar é o que aparece em mim e não some. Tenho cócegas na língua e coço o pé.( Afinal, isto sou eu, cheio de contrastes, assim mesmo).
O pensar em mim depende do assunto e se não há assuntos os fabrico quebrando copos ou cuspindo na indumetária do garçom. E ai…
O importante é o funcionamento da máquina pensante. Essas questõe de adulterio, homicídios, lenocínio, homossexualismo, seja o que for, me comovem à falta de outro assunto. Tenho que pensar, tenho que continuar pensando e ir guardando tudo, para esconder em mim o olhar e o falar e mais: a morte.

